Publicado em 11.12.2010

Os sites de compras coletivas estão na moda e apresentam expansão impressionante, mas já tem gente com medo de ver o negócio virar uma nova bolha

Ivo Dantas

idantas@jc.com.br

Nada de Twitter, Facebook ou Orkut. A moda do momento são os sites de compras coletivas. Com menos de um ano no Brasil, já viraram febre entre os consumidores e uma grande oportunidade para empresas que desejam anunciar na internet. Caso da perfumaria Água de Cheiro, que recorreu aos sites para divulgar a abertura de sete novas lojas em Pernambuco neste final de ano.

“Apostamos na compra coletiva por ser fruto da nova era das redes sociais. Os resultados não demoraram a aparecer. Vendemos 300 cupons com 50% de desconto em qualquer produto. No outro dia, já notamos um crescimento de 10% no movimento das lojas”, conta o gerente da empresa, Taulo Rômulo Bandeira.

Estimativas dos sites dão conta de que, até o final do ano, mais de 8 milhões de usuários deverão fechar negócios através desses endereços eletrônicos. Partindo de R$ 1 milhão, em junho, para mais de R$ 15 milhões, em novembro, a evolução do faturamento do setor no Brasil impressiona até o mais otimista dos estudiosos do meio digital. Para o próximo ano, as perspectivas são ainda mais impressionantes, devendo movimentar R$ 500 milhões. “A receptividade do mercado surpreendeu a todos. A cada mês revíamos nossas metas e, ainda assim, errávamos. A velocidade com que o segmento se desenvolveu é sem precedentes”, conta o presidente do site ClickOn, Marcelo Macedo.

Hoje, o segmento já possui mais de cem empresas atuando em território brasileiro. Um boom impulsionado por grandes investimentos, como o do site ClickOn, que iniciou as atividades com R$ 17 milhões, e o pioneiro no País, Peixe Urbano. “Nasce um novo endereço a cada semana. O problema é que temos empresas multinacionais investindo muito dinheiro e competindo com pequenos empresários. Não tenho dúvida de que 2011 será marcado pelo estouro dessa bolha. Vai virar briga de cachorro grande”, prevê o diretor de tecnologia do Aponta Ofertas, Rafael Siqueira.

Orbitando em meio a esses gigantes, sites menores também buscam seu espaço e apostam no tamanho do mercado online para se fortalecerem e não serem engolidos pelo estouro da bolha. Pernambucano, o Regateio escolheu as principais cidades do Nordeste como foco do negócio. “Existe um grande potencial que está se revelando aos poucos nessas áreas”, justifica o diretor comercial do site, Felipe Batista.

Antenado com a necessidade de ganhar a confiança dos consumidores online, cada vez mais exigentes, o Regateio aposta no controle de qualidade e na escolha dos estabelecimentos parceiros. Segundo Batista, a empresa recebe cerca de 40 e-mails todos os dias com interessados em anunciar. “Temos um forte controle na pós-venda e só fechamos contrato após conhecer o negócio vendido. Às vezes, chegam companhias sem condições de dar conta da demanda e temos de rejeitar”, diz, comemorando o reduzido número de reclamações que não ultrapassam 1% das vendas.

De olho na grande quantidade de interessados em empreender nesse mercado, o empresário Ronaldo Carneiro Leão criou o site Gafanhoto Atômico, voltado para o desenvolvimento de endereços de compra coletiva a um baixo custo, reduzindo os riscos da operação. Com menos de dois meses, o serviço já conta com 14 sites em funcionamento, e muitos por vir. “O País está cheio de empreendedores querendo entrar nesse mercado. Muitos desses esbarravam na dificuldade de montar um site, de dominar a tecnologia de transações pela internet. Nossa proposta é resolver essas questões e facilitar a entrada dessas pessoas no poderoso mercado das compras coletivas”, explica.

Em meio à euforia criada pelo sucesso do modelo de negócio, o coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Unicap Rodrigo Duguay faz um alerta para as empresas pernambucanas. “Não é sempre que vale a pena anunciar nesses sites. Depende dos objetivos definidos pelo marketing”. Segundo ele, a técnica é uma boa saída para empresas que desejem um aumento de fluxo no seu estabelecimento, principalmente por estimular um primeiro contato com a marca. “É uma forma de fazer as pessoas conhecerem o serviço. Os maiores beneficiados por esta lógica são os restaurantes e estabelecimentos especializados em tratamentos estéticos, pois podem estimular uma fidelização do cliente”, cita.

Oportunidade aproveitada pelo restaurante Ville de Crepe, no Espinheiro. Aberto há três meses, o estabelecimento aproveitou para divulgar o cardápio através dos descontos em um site de compra coletiva. “Com alguns dias tivemos um aumento de cerca de 30% no movimento da casa. Isso sem reduzir a qualidade. Na verdade, procuramos nos empenhar ainda mais, já que trata-se do primeiro contato com a nossa cozinha”, diz o proprietário do restaurante, André Costa.

Mesmo com o sucesso da promoção, o empresário garante não se iludir com a grande quantidade de vendas. “É muito positivo por causa do aumento do número de pessoas que passam a conhecer o restaurante, mas também reconhecemos a existência de outros consumidores oportunistas, que compram apenas pela chance da oferta. Esses utilizam somente o cupom sem intenção de voltar. Mesmo assim, valeu o investimento, pois estamos tendo uma alta taxa de retorno”, analisa Costa.

Negócio exige atenção dos consumidores
Publicado em 11.12.2010

Apesar da euforia criada por esse novo mercado, a compra coletiva pode se transformar numa armadilha. Dificuldade para utilizar os cupons de desconto e mal entendidos quanto às condições de uso já são problemas que afetam muitos consumidores. Navegando pela internet, a enfermeira Soraya Ebrahim dos Santos foi fisgada pela oferta de um serviço de estética. Na hora de marcar o atendimento, veio a dor de cabeça. “Comprei para utilizar nas férias. Liguei para lá e disseram que só tinha vaga para fevereiro. Agora, se quisesse pagar o preço integral havia a possibilidade. Foi uma decepção. Nunca mais compro nesses sites. Me senti enganada, pois não existiam restrições na hora da negociação”, diz.

Para o proprietário do site Imperdível, Paulo Veras, cabe ao consumidor prestar atenção a todos os aspectos da oferta, como prazo para utilizar e condições especiais. “Ainda é uma novidade para muitas pessoas, por isso existem desentendimentos. Alguns estão comprando mais do que terão tempo para usar, mas acredito que, aos poucos, o consumidor entenderá qual a melhor forma de aproveitar essas ofertas”, analisa.

Outro ponto a ser observado são os prazos de validade, para não perder o dinheiro investido. Na maioria das vezes, as ofertas valem por seis meses, mas podem variar. “É essencial ficar atento à essa informação. Por isso, temos um estudo sobre a possibilidade máxima de cada estabelecimento atender à quantidade vendida. Para não tornar impossível a utilização do cupom, finalizamos a oferta, caso o número vendido chegue ao limite estabelecido”, explica o diretor comercial do Regateio, Felipe Batista.

Já o presidente do ClickOn, Marcelo Macedo, conta que já existe um sistema para evitar maiores problemas para o cliente. “Caso não consiga utilizar o desconto pela impossibilidade de marcação existe a opção do reembolso. Agora, é preciso entender que quem está pagando até 90% mais barato em um produto ou serviço não pode esperar ter as mesmas condições de quem paga o valor total. O consumidor fica sujeito às condições especificadas na hora da compra”, alerta.

No fim, a melhor saída sempre é o consumo consciente. O cirurgião-dentista George Sivini é um dos 8 milhões de brasileiros que utilizam os sites de compras coletivas para economizar. Todos os dias, ele checa o e-mail ansioso por ofertas, mas garante tomar cuidado antes de fechar negócio. Ao todo, foram quatro compras realizadas até hoje. “Não sou compulsivo. Estudo as promoções que são melhores para mim. Sempre me controlo para não terminar o mês no vermelho. Pelo contrário, acho que comprando nesses sites consigo até economizar uma grana no final do mês. Além disso, compro sempre pensando no longo prazo, e não para consumo imediato”, conta.

Atenciosamente,

Rogério Angelim

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