Publicado em 09.01.2011

Leonardo Spinelli

lspinelli@jc.com.br

O que o cliente anda falando de sua marca? Todo empresário tem essa curiosidade, principalmente porque dela depende o seu lucro. As redes sociais e os blogs são hoje o melhor canal para saber como está a opinião do consumidor e as grandes empresas investem cada vez mais nesta fonte de informação. Há muito investimento em internet deixou de ser home Page para se tornar relacionamento. E quanto mais direto, melhor. Para a diretora executiva da Le Fil Comunicação, Socorro Macedo, uma assessoria em mídias sociais, o movimento se explica porque os blogueiros hoje em dia são os novos formadores de opinião.

“As empresas sentiram a necessidade de falar com eles, há a tendência de se discutir com os blogueiros e divulgar as marcas por meio deles”, comenta Socorro. Uma das funções de sua empresa é aproximá-los das grandes empresas. A Le Fil mantém um cadastro de 100 blogs influentes, promovendo encontro entre as partes. A empresa foi criada há três anos, começando com um cliente e hoje já conta com uma dúzia deles, incluindo o Shopping Recife e multinacionais como Coca-Cola e Kraft Foods.

Para se ter uma ideia, o Projeto Inter-meios, que divulga o investimento publicitário em mídia no Brasil, divulgou em dezembro que em 10 meses a mídia nacional faturou R$ 21,1 bilhões, resultado 20,6% superior ao mesmo período de 2009. Além disso, segundo o projeto, o maior índice de crescimento, de janeiro a outubro de 2010, é o da internet (28,8%) que já tem 4,4% do total das verbas publicitárias no País. Segundo Manuel Fernandes, diretor da Bites, uma das principais assessorias em mídias de internet no Brasil, os recursos voltados para relacionamento em mídias sociais já deve atingir 20% deste percentual dedicado à internet. Em termos absolutos isso quer dizer que as empresas brasileiras investiram até outubro cerca de R$ 185 milhões nas mídias sociais a exemplo de Twitter, Facebook e os próprios blogs.

A internet colaborativa, conhecida como web 2.0 vem transformando o que se entende por investimentos na rede. “Essa verba não é de internet, mas de relacionamento em internet. O que muda é que elas estão aprendendo a se relacionar com o consumidor, diretamente, no caso das redes sociais e indiretamente, por meio dos blogueiros, que continuam com um papel importante”, comenta Fernandes.

Ele explica que a publicidade em internet é um guarda-chuva que inclui publicidade, banners e ações promocionais. “Hoje o grande gasto com empresas ainda é em compra de publicidade em sites como o UOL. Mas acho que as redes só tendem a crescer e os blogueiros continuam com a sua importância”, observa. Na sua visão, o planejamento estratégico das corporações para 2011 é aumentar seu nível de relacionamento com os clientes, aprender a se comunicar melhor com eles. “A questão é que sempre houve a insatisfação do cliente com qualquer tipo de produto ou serviço. O que muda agora é que ele coloca esse seu descontentamento para muita gente. O consumidor agora é produtor de mídia. Ele até admite um erro, mas não aceita ser enganado.”

Utilizando das teorias de comunicação, Flávio Valsani, diretor executivo da LVBA – agência de relações públicas – explica que com a web 2.0 a questão clássica de gerador (mídia) e receptor (espectador) de informação ficou mais relativa. “Hoje as pessoas são os dois e mantêm o seu círculo de relacionamento. O blogueiro é quase tão importante quanto a mídia tradicional hoje em dia. A tradicional se pauta pela credibilidade assim como o blogueiro, que atua mais em nível de recomendação pessoal”, teoriza.

“Hoje qualquer site de compras tem espaço para comentários de usuários e quem vai adquirir um produto vê a opinião de quem já comprou. As pessoas estão se acostumando com a opinião de seus pares”, diz. A agência LVBA atende clientes como Nokia e mantém a política de convidar blogueiros considerados influentes para os lançamentos de novos produtos e empresta novos aparelhos para que eles testem e digam suas impressões. Para as empresas, além da divulgação elas também ganham informações para tentar melhorar algum possível defeito.

Um deles é o estudante de jornalismo Belenos Govannon, que há um ano mantém o blog Vale um post (http://valeumpost.com.br/), especializado em notícias tecnologia, internet e sustentabilidade. Desde então o jovem não para de receber convites para lançamentos de aparelhos tecnológicos, além de recebê-los em casa para testá-los. “Elas mandam celulares, notebooks e outros gadgets. Mandam para que eu teste e dê a minha opinião. Não pedem para elogiar, mas sabem que eu vou dizer o que penso sobre o aparelho. Muitas vezes eu não faço comentários porque verifico que o produto não faz o perfil do meu blog, que é dotado de poucos recursos tecnológicos e, por isso, não vai interessar ao meu público que é nerd e sabe tudo de tecnologia”, comenta Govannon. “Os grandes grupos veem blogs como o meu como um meio de um consumidor dar sua opinião e isso dá confiança, porque é um filtro, não é propaganda, é uma divulgação fora da transação comercial”, comenta.

Govannon admite que para um blog cujo o tema é tecnologia, suas 400 visitas de leitores por dia ainda é pouco, comparado com outros que tem mais de 15 mil page views diários. Mas para empresas como a Nokia, sua opinião é importante porque os 400 leitores diários de Govannon são consumidores especializados e com grande potencial de compra. Ou seja, é uma comunicação direta e segmentada para quem realmente interessa.

Como se trata de um novo meio de divulgação, muitas empresas fazem abordagens que, muitas vezes não são aceitas pelos blogueiros, como a política de presentes. Mas assim como os grandes veículos de comunicação, a credibilidade é um patrimônio vital para quem mantém um blog. “A relação é basicamente de veículo de imprensa”, resume a blogueira Camila Coutinho, que mantém o Garotas Estúpidas (http://www.garotasestupidas.com/), um dos mais bem sucedidos blogs pernambucanos, especializado em moda feminina. “Somos constantemente convidados para lançamento, fazemos publicidade e o leitor tem de saber disso”, diz Camila, orientando os colegas de internet a não cair no canto da sereia. “Tem muita proposta indecente, mas não temos obrigação de falar de tudo o que recebemos. O blogueiro tem de se impor, mas tem muita gente que não está preparada e cai, fazendo publicidade de graça. Tem marcas que têm como investir, mas aborda a gente de forma totalmente errada.”

http://jc3.uol.com.br/jornal/2011/01/09/not_407353.php

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