Publicado em 16.02.2011

Manuella Antunes

mantunes@jc.com.br

Apesar de serem uma tendência recente, os sites de compra coletiva já caíram nas graças do consumidor brasileiro. Tamanha aceitação, entretanto, levou os empreendimentos a um ponto crítico. Hoje, existem tantos serviços nesse formato que é difícil imaginar como eles se sustentam. Consenso no mercado é que não há espaço para todos e que 2011 será o ano decisivo para que poucos se consolidem e muitos desapareçam da web. Melhor para os apaixonados por promoções. Isso porque a seleção natural será guiada por um critério básico: qualidade. A empresária Renata Alves (foto), 23 anos, que o diga. Ela teve o privilégio de conhecer o serviço por todos os ângulos e destaca que o compromisso com o consumidor em cada etapa do atendimento é primordial. “O cupom serve para fazermos uma grande degustação dos estabelecimentos. O objetivo deve ser fidelizar e isso só vai acontecer se, do começo ao fim, tudo der certo”, aponta Renata, com a propriedade de quem, além de usuária assídua, já teve o seu restaurante incluído em uma das promoções de um site local e acabou contratada por ele para trabalhar no setor comercial.

Ano será de qualificação do mercado
Publicado em 16.02.2011

Depois do crescimento superior a 1.000% em menos de 12 meses, é hora de separar o joio do trigo, com inovação, segmentação e bom atendimento

Há menos de um ano, o primeiro site de compras coletivas estreava no Brasil. Nesse intervalo curto de tempo, a tendência virou febre. Hoje, o pioneiro já conta com cinco milhões de cadastrados. Mas o sucesso não é privilégio dele. O número total de consumidores é assustador. Se em junho, eram 1,7 milhões de usuários, em dezembro, no fechamento do ano, as estatísticas do Ibope Nielsen Online apontavam 13,2 milhões. Já de acordo com levantamento divulgado no último dia 2 pelo site Bolsa de Ofertas, especializado no segmento, o número de serviços de compras coletivas já chegou a 1.025. Esse total aponta um crescimento de 153% em dois meses, uma vez que na última pesquisa, de 8 de dezembro, existiam 405 páginas. Apresentado o cenário, surge a grande questão: qual o futuro desse mercado?

Empresários do setor especulam que 2011 será marcado por um possível estrangulamento, que levará poucos a crescer e muitos a bater em retirada da web. Quem acredita nessa hipótese é a diretora de comunicação do Peixe Urbano (www.peixeurbano.com.br), Letícia Leite. “O crescimento tem sido impressionante, mas poucos são realmente grandes, com amplitude nacional. A maioria é composta por páginas focadas em uma cidade apenas.”

Letícia acredita que em 2011 o mercado passará por um filtro natural e, com isso, o número de sites começará a cair. “Não acho que isso ocorrerá pela escassez de ofertas, mas, sim, pela falta de estrutura. Quanto maior o serviço, mais usuários se conquista e, consequentemente, mais poder de negociação com os fornecedores se tem. E é assim que conseguimos bons descontos e mais clientes. No final, é um ciclo.”

Já o CEO do ClickOn (www.clickon.com.br), Marcelo Macedo, enxerga uma grande segmentação nesse mercado. “Para mim, todos esses sites não estão no mesmo grupo. Acho que há, sim, espaço para todo mundo, uma vez que poucos são os grandes e nacionais e outros atuam pontualmente e de maneira super-regionalizada”, avalia.

Macedo exemplifica: “Há os que atuam em uma cidade e veem no negócio uma opção alternativa de ganhar dinheiro. Para eles, o que entrar é lucro. Vai fechar por quê? O risco é o pequeno que quer ser grande. Isso não é fácil de acontecer”.

O sócio do Desconto Maluco (www.descontomaluco.com.br), Pedro Almeida, ratifica a ideia: “Como somos da terra, conhecemos melhor as ofertas, os estabelecimentos. Isso nos dá condições de oferecer qualidade sempre”.

Para o sócio do site recifense Regateio (www.regateio.com.br), Felipe Batista, as dificuldades são maiores para quem começa agora do que para os que pegaram as primeiras ondas da novidade. “Fomos o primeiro com sede no Nordeste e, hoje, já expandimos para João Pessoa, Aracaju, Natal e estamos abrindo em breve em Salvador. Mas concordo que o estrangulamento é notável”, afirma.

Hoje, o mercado estima que haja mais de 30 sites com esse perfil no Recife. “A maioria deles vende muito pouco. Acredito que, há, sim, um limite de fornecedores. O que tem acontecido muito é uma grande homogeneidade nas ofertas. Estética, por exemplo, é um setor mais fácil de fechar e que está todos os dias nas páginas dos sites.”

Para o chefe de negócios do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Eduardo Peixoto, os números do mercado são assustadores, mas o grande problema é a hora de reter clientes. “Não acho que há mercado para todo mundo. Além de depender do volume de fornecedores, para um site sobreviver é necessário contar com movimentação de usuários e não só cadastros. Sem ofertas que chamem a atenção, isso não ocorre”, analisa.

Peixoto arrisca uma previsão: “Acho que o número de sites que se consolidará é muito incipiente. Dez já me parece muito quando falamos em páginas que conquistarão presença nacional”.

Já consolidado em Fortaleza e Belém, o site Barato Coletivo (www.baratocoletivo.com.br) dá ainda mais força às estatísticas e expandiu suas operações na última semana para o Recife. “Temos um foco muito grande no setor de entretenimento, tanto que estamos vinculados a uma produtora renomada da cidade”, destaca a diretora, Liége Xavier, que acredita ser esse o principal diferencial competitivo do produto.

“Prezar pela qualidade também é um fator importante para se manter num mercado em franco crescimento como esse”, afirma. E completa: “Acho que existe, sim, campo e parceiros interessantes a serem explorados. Tudo depende do produto que você cria”, finaliza. (M.A.)

Usuários queixam-se do atendimento
Publicado em 16.02.2011

Se por um lado a explosão dos sites de compras coletivas gerou (de acordo com estimativas do Peixe Urbano) uma receita de R$ 100 milhões em 2010 para o mercado, por outro, começaram a surgir queixas em relação à qualidade dos serviços ofertados. As reclamações vão desde atendimento diferenciado para os clientes do cupom até a dificuldade de fazer reserva nos estabelecimentos.

Para presentear o sobrinho, a jornalista Tatiana Portela, 42 anos, comprou, através de um dos serviços, cupons para um rodízio de comida japonesa. No anúncio da oferta informava-se que a economia seria de 50% (de R$ 44 por R$ 22). Tudo bem até aí. Mas bastou chegar ao restaurante para começarem as contrariedades.

“Vimos no cardápio que o rodízio não custava R$ 44, como havia sido publicado e, sim, R$ 28. Além disso, tínhamos direito a uma sobremesa e quando fomos escolher percebemos que as opções eram restritas. Fiquei muito decepcionada”, conta.

De acordo com Tatiana, seu sobrinho comentou que sentiu o serviço oferecido foi diferente em relação ao de outras mesas. “Depois disso, não comprei mais. Acho que agora só se eu tiver certeza que vale muito a pena e depois de ler, atentamente, as restrições.”

E é justamente isso que não deveria acontecer. Consenso entre os empresários do ramo é que as compras coletivas servem, antes de tudo, como mídia, uma forma de divulgação, com certo retorno financeiro. “É um test-drive do setor de serviços. Para conseguir reter aquele cliente, a experiência precisa ser muito boa. O objetivo é a publicidade e não faturar rios de dinheiro”, destaca o CEO do ClickOn, Marcelo Macedo.

É com essa ideia que a Academia Life acaba de fechar parceria com um dos sites que atuam no Recife. “O público de uma academia é muito diferente do de bares e restaurantes. Nossos clientes não são rotativos e, sim, fixos. O intuito, então, é conseguir fidelizar”, explica o coordenador do estabelecimento, Enoque Tavares de Menezes.

Para ele, o interessante não é vender a academia com preço mais baixo, mas promover a marca. “Vamos oferecer aos interessados uma degustação bem maior do que normalmente se faz e, no fim do ano, saberemos de quanto foi nosso percentual de retenção.”

Já no restaurante italiano La Farinata, em Aldeia, o objetivo já foi alcançado e a preocupação com a qualidade fez parte de todo o processo. “Queríamos divulgar o espaço para as pessoas do Recife e não só vender para quem já era cliente”, afirma a empresária Renata Alves, 23.

Ela conta que aproveitou para realizar uma pesquisa para identificar os bairros de onde vinham os clientes. “Vieram pessoas de locais distintos da Região Metropolitana. Sempre tive o cuidado de orientar toda a equipe sobre a potencialidade desse público. Nossa experiência foi legal”, conta.

No entanto, como cliente, Renata já teve algumas dificuldades. “Certa vez, comprei uma partida de paintball e acabei perdendo o prazo, pois não consegui marcar. Acho que o estabelecimento vendeu mais do que suportava e não deu conta.”

Para que tudo corra bem, tanto os sites quanto os fornecedores têm funções a desempenhar. É o que acredita o sócio do Regateio, Felipe Batista. “Somos os intermediadores e temos o papel de orientar os parceiros sobre como proceder com os clientes da promoção. No entanto, cabe a cada estabelecimento cativar e fidelizar. Quem discrimina, dá um tiro no próprio pé. O marketing é inverso”, avalia. (M.A.)

Personalização é aposta para futuro
Publicado em 16.02.2011

Como todo negócio, o mercado das compras coletivas também precisará, num futuro próximo, buscar alternativas para fugir da homogeneidade das promoções. A verdade é que para conseguir uma fatia cada vez maior dessa que parece ser a pizza mais pedida no momento as empresas precisarão se renovar. A personalização das ofertas é, para alguns, a aposta para o futuro.

Um exemplo é o Groupon Brasil (www.groupon.com.br). Segundo o presidente, Florian Otto, o investimento na segmentação das ofertas é a novidade que a empresa trará para o País, baseada em modelo já adotado pelo grupo nos Estados Unidos. “O que pretendemos fazer é trabalhar com promoções personalizadas. A partir das compras anteriores e em informações como local de residência, idade e sexo poderemos criar um perfil do usuário cadastrado e encaminhar opções mais interessantes para ele”, explica.

Dessa forma, segundo Otto, um homem que, por exemplo, já tenha adquirido uma troca de óleo e um rodízio de sushi não ficará recebendo ofertas de estética e beleza. “Vamos trabalhar por nicho e isso fará com que possamos atender melhor e mais especificamente cada cliente.”

O sócio-fundador do site Imperdível (www.imperdivel.com.br), Paulo Veras, concorda com a ideia da particularização das vendas. “No momento, nosso principal desafio é esse. Precisamos segmentar melhor nosso público, trabalhando sempre com regionalização e ofertas personalizadas”, avalia.

De acordo com ele, a estratégia já está nos planos da empresa. “Estudamos estudando a melhor forma de fazer isso. Hoje não há tecnologia que permita esse trabalho e nem quantidade de ofertas suficientes, mas, em breve, será possível”, revela Paulo Veras. (M.A.)

Cad Informática JC – 16.02.2011

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